domingo, 9 de setembro de 2012

HILDA FURAÇÃO: FICÃO E REALIDADE, A VERDADE POR TRAZ DO MITO.


      Ao final de 1997, o elenco fixo do SBT é chamado para trabalhar, desta vez em um projeto de comédias de situação. Ana Paula Arósio, cujo contrato vencia em maio do ano seguinte, está indecisa se participa das histórias com texto argentino, enquanto começa a ser sondada pela Globo. A reação do SBT com o "assédio global" não é nem um pouco positiva, como era de se esperar, pois a emissora paulista investiu na formação de Ana Paula como atriz durante quase três anos. As negociações se arrastaram durante um mês, e finalmente Ana Paula é liberada para participar de um dos maiores projetos de teledramaturgia da Globo: a minissérie Hilda Furacão.

      A obra é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito por Roberto Drummond em 1993. Conta a história de Hilda Gualtieri Müller, a "Garota do Maiô Dourado", uma belíssima e recatada moça da família mineira, que no dia de seu casamento, em 1.º de abril de 1959, abandona o noivo e vai viver em um prostíbulo na zona boêmia de Belo Horizonte. Os seus motivos fazem parte de um mistério muito bem guardado por ela, que intriga o próprio Roberto Drummond, um jovem jornalista que trabalhava para o tablóide "Binômio", de José Maria Rabelo.

      Hilda acaba por despertar a curiosidade dos editores do "Binômio", que escalam Roberto para acompanhar os acontecimentos na Zona Boêmia. Frei Malthus, amigo de infância de Roberto e clérigo bastante respeitado pela família de BH, realiza em plena praça o exorcismo de Hilda Furacão, mas uma súbita tempestade desaba, e todos saem correndo. Hilda, na confusão, perde seu sapato, que é achado por Malthus, e o esconde.


      Tendo como cenário de fundo as transformações do Brasil naquela época, a narrativa se desenvolve de maneira deliciosa, com vários núcleos além dos personagens principais: a ambição de Aramel, o Belo, também amigo de infância de Roberto, de se tornar galã de Hollywood; os conflitos entre a modernidade e o conservadorismo na pequena Santana dos Ferros; a militância comunista; a emisora de rádio Inconfidência e o apresentador MC, apaixonado por Gabriela M. Enquanto isso, Hilda e Malthus se aproximam cada vez mais, vivendo um amor intenso e proibido. A saída de Hilda Furacão do Maravilhoso Hotel tem uma data marcada: o 1.º de abril de 1964, exatamente 5 anos após sua chegada. Mas o dia da mentira também traz o fim de um sonho e o início de um pesadelo, o do golpe militar.


      A história parecia ter caído como uma luva para a televisão. Com a adaptação de Glória Perez e direção de Wolf Maia, a minissérie começa a ser gravada em novembro de 1997, contando com supervisão do próprio Roberto Drummond. Boa parte das locações é feita em Tiradentes, cidade histórica de Minas Gerais, e as gravações correm em ritmo acelerado, durando até fevereiro.



      Mas o sucesso de Hilda Furacão é total. Estreando no dia 27 de maio de 1998 e com 31 capítulos, atinge uma audiência de até 32 pontos, superando inclusive a novela das 20 hs, "Torre de Babel". A série conseguiu cativar a atenção do país, em pleno desenrolar de uma Copa do Mundo. O livro de Roberto Drummond chega à lista dos mais vendidos, assim como o CD com a trilha sonora da minissérie. A Globo traduz a série para o francês e inglês, e a coloca à venda no mercado internacional.

      Além da consagração de Ana Paula Arósio, a série ainda alavancou a carreira de vários atores, entre eles Matheus Natchergaele (o travesti "Cintura Fina"), Thiago Lacerda (Aramel) e Carolina Kasting (Bela B.). Justiça feita a tanto sucesso, "Hilda Furacão" recebeu o prêmio de melhor teledramaturgia de 1998 da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

Ficha Técnica

    Adaptação: Glória Perez
    Direção de núcleo: Wolf Maia
    Direção: Maurício Farias e Luciano Sabino
    Direção de Produção: Carlos Henrique Cerqueira Leite
    Gerente de Produção: Roberto Câmara
    Direção Musical: Mariozinho Rocha
    Direção de Fotografia: Ricardo Gaglianone
    Figurino e Direção de Arte: Yurika Yamazaki
    Cenografia: Claudia Alencar e Alexandre Gomes

Elenco:

    Ana Paula Arósio (Hilda)
    Rodrigo Santoro (Malthus)
    Selton Mello (Roberto Drummond)
    Thiago Lacerda (Aramel)
    Stênio Garcia (Tonico Mendes)
    Tereza Seiblitz (Gabriela M.)
    Sérgio Loroza (MC - radialista)
    Ricardo Blat (Cidinho - ajudante de Tonico Mendes)
    Carolina Kasting (Bela B. - namorada de Roberto)
    Eva Todor (Dna. Loló Ventura)
    Rogério Cardoso (Ventura - marido de Dna. Loló)
    Cininha de Paula (Luciana - amiga de Dna Loló)
    Débora Duarte (Çãozinha - tia de Roberto)
    Walderez de Barros (Ciana - tia de Roberto)
    Marcos Oliveira (Zé Viana - namorado de Çãozinha)
    Zezé Polessa (Dona Neném - mãe de Malthus)
    Iara Jamra (Beata Fininha)
    Mara Manzan (Nevita)
    Marilena Cury (Alição - prostituta de Santana dos Ferros)
    Thais Tedesco (Alice - prostituta de Santana dos Ferros)
    Yachmin Gazal (Alicinha - prostituta de Santana dos Ferros)
    Paulo Autran (Padre Nelson)
    Marcos Frota (Padre Geraldo)
    Guilherme Karan (João Dindim - sacristão)
    Luís Mello (Padre Cyr)
    Otávio (Mário Lago)
    Chico Diaz (Orlando Bonfim - vereador de BH)
    Cláudia Alencar (Divinéia)
    Paloma Duarte (Leonor)
    Rosi Campos (Maria Tomba-Homem)
    Matheus Natchergaele (Cintura Fina)
    Tarcísio Meira (Cel. João Possidônio)
    Roberto Bonfim (Cel. João Filogônio)
    Eliane Giardini (Dona Bertha Müller - mãe de Hilda)
    Henri Pagnocelli (Sr. Müller - pai de Hilda)
    Arlete Salles (Madame Janete - cartomante de Hilda) 

 A VERDADEIRA HILDA FURAÇÃO:



Quem a tirou dos prostíbulos da Savassi, na capital mineira, foi simplesmente Paulo Valentim (1932-1984), artilheiro e ídolo do esquadrão montado pelo time de General Severiano a partir de 1955.
A verdadeira Hilda Furacão (na foto com Paulo Valentim em Buenos Aires) nada tinha a ver, é óbvio, com a Ana Paula Arósio que viveu seu papel na televisão. A autêntica Hilda Furacão casou-se na igreja com Paulo Valentim, tendo como padrinho João Saldanha (1917-1990), numa cerimônia que quase virou notícia de jornal. Quem me contou tudo isso foi meu amigo Neivaldo Carvalho (1933-2006), um dos mais corajosos e ecléticos jogadores que o Botafogo já teve até os dias de hoje e contemporâneo de Paulo Catimba Valentim nos grandes e inesquecíveis tempos do clube de General Severiano.
A cerimônia do casamento teve momentos de suspense. A certa altura, o padre, com pouquíssima sutileza, fez um sermão e, dirigindo-se à Hilda, disse que esperava que ela abandonasse de vez a chamada mais antiga das profissões. Paulo Valentim irritou-se e queria bater no padre. Curiosamente, quem interveio e evitou um conflito generalizado foi nada menos do que João Saldanha, que de religioso não tinha nada, pois era marxista-leninista de carteirinha. Por sorte a cerimônia chegou ao final e, entre mortos e feridos, todos se salvaram. Só houve muito medo por parte dos coroinhas que ajudavam o padre.
Daí em diante, pelo menos a partir de 1984 – ano da morte de Paulo Valentim – nada se sabe de Hilda Furacão. Neivaldo me dizia que acreditava que ela teria ido para o México – por onde Paulo Valentim também andou – e simplesmente desaparecido do mapa. Quanto a Paulo Valentim – ídolo também no Boca Juniors, por fazer muitos gols no River Plate – sabe-se apenas que morreu pobre em Buenos Aires, e que só não foi enterrado em cova rasa, para indigentes, porque o presidente do Boca, J.J.Armando comprou-lhe uma sepultura modesta.

3 comentários:

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  2. http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/arte-e-livros/2014/07/27/noticia_arte_e_livros,157703/outono-de-um-mito.shtml

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  3. Meu pai ,que sempre teve o futebol acima da família,nos contou essa história na época que foi anunciado a série. Então,história real.

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